sexta-feira, janeiro 23, 2009

Ñ é por nada mas já tinha pensado nisto

«Ontem, as minhas filhas fizeram 28 anos. Sempre considerei, após pesarosas pesagens e comparações, que é a melhor idade que um ser humano pode ter.

Quando tinham 27, calei-me bem calado: não as podia animar. Só ontem, logo à meia-noite, lhes disse que os parabéns que lhes dava era por terem sobrevivido os 27 anos. É uma idade em que não se tem 25 anos há dois anos; em que nem sequer se tem já 26 - uma idade intermédia e desinteressante, em que nem se é jovem nem nada.

Mas 28 anos é a idade mais bonita que há. A partir dos 28, o declínio é tão suave - está tão bem concebido até aos 37 - que até a travessia dos 30 é fita. E porquê? Porque o pior ou já passou ou ainda demora muito tempo a chegar. Só a partir dos 37 se compreende porquê. E, mesmo assim, pouco. Graças a Deus.

Só sabe quem já teve. 28 anos é 7; é 14; é 21 e, melhor do que tudo, são 28. São todas boas idades, mas difíceis. Com 7 já não se tem 5. Com 14 é um armário que não era aos 11. Com 21 parece tudo ginja, mas o fulgor dos 19 já lá vai. E só não é mais deprimente porque toda a gente com mais de 21 anos está deprimida e mente.

Quando elas tinham 2 anos, eu tinha 14 vezes mais anos que elas. Agora que têm 28, nem sequer o dobro tenho. A idade das duas juntas é maior do que a minha (53): é um consolo. Estamos cada vez mais próximos.

Chamam-se Sara e Tristana e pode dizer-se que tenho um fraquinho por elas - oh, sei lá - há mais de 28 anos já.» [Público assinantes]
Por Miguel Esteves Cardoso

Sem comentários: